Litha

Midsommar, o Meio do Verão

Também conhecido como Midsummer (Meio do Verão), Litha acontece no dia do solstício de Verão, quando a parte clara do dia é mais longa que a parte escura. A duração exata de cada período, por sua vez, varia de região para região, de acordo com a distância da Linha do Equador. Nos pólos terrestres, neste momento ocorre um dia de 24h sem noite. Acontece por volta do dia 21 de dezembro no hemisfério sul e no dia 21 de junho no hemisfério norte. Habitualmente as celebrações deste período representam tanto o triunfo do Sol sobre as trevas, quanto o início do seu gradativo declínio.

Origens ancestrais

Litha era o mês para os anglo-saxões em que ocorria o feriado celebrando o solstício de verão. O termo tem raízes controversas, mas as fontes mais aceitas são o verbo proto-germânico “līþaną” que significa passar, atravessar, e o verbo do antigo escandinavo “líða” que significa “mover suavemente”, ambos associados ao movimento aparente do Sol nos céus. Também pode estar relacionado, em ambas as línguas, com a ideia de um estado físico, emocional ou psicológico de iluminação, com transição para momentos mais reservados.

Neste dia, em alguns monumentos megalíticos como o Stonehenge, ocorre o alinhamento da luz solar com as pedras em direção ao centro do monumento. Poucos registros claros sobre a festividade pagã chegaram até a modernidade, mas acredita-se que esta tenha sido uma das celebrações onde ocorreu maior apropriação de seus símbolos por parte do Cristianismo. Sabemos, entretanto, que o fogo e as fogueiras estavam presentes, e que a data servia de marco para a contagem de outras celebrações. Também existem indícios de que as cinzas das fogueiras ritualísticas eram espalhadas pelos campos para que a energia das cinzas concedesse nova vitalidade aos pastos, animais e cereais.

Entretanto, o caráter mais “mágico” e simbólico aparece mesclado e moldado em muitos dos registros das celebrações pré-cristãs e contaminadas pelo sincretismo. Os diferentes movimentos neopagãos ao reivindicarem o solstício de verão teceram uma colcha de retalhos, onde o espelhamento e duplicidade com o Beltane ficaram exageradamente evidentes. Maypoles reaparecem nessa celebração, bem como as fogueiras e benção aos campos cultivados.

Cogumelos e Fadas

Algumas indicações apontam para a coleta de cogumelos Amanita Muscaria que ocorria nesta época, e estes eram usados para a preparação de inseticidas naturais. Tais cogumelos, dentre outros, por muitas vezes nascem em círculos, e seriam popularizados nos contos feéricos da Era Vitoriana, através da noção de círculos de fadas (ou de outras criaturas mágicas elementais).

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Imagem: Hans Zatzka (1859–1945).

No folclore britânico, outras formações como redemoinhos nas chamas, nas folhas ou nas águas, bem como a ocorrência de clareiras circulares, círculos nas plantações, nuvens e fumaça na forma de círculos ou de espirais também indicariam essas presenças. Assim, o Meio do Verão se popularizou como um festejo das fadas.

Neste sentido, agregaram-se à data alguns elementos folclóricos e literários, como a peça de Shakespeare, ‘Sonho de uma Noite de Verão’ (A Midsummer Night’s Dream). Esta peça apresenta uma atmosfera feérica, misturando folclore britânico com uma narrativa greco-romana. Porém, é interessante observar que Oberon, o Rei das Fadas, é citado como o demônio Oberyon (também rei das fadas) em grimórios do Século XVI, junto à sua esposa Mycob e 7 filhas, junto a técnicas similares às do Ars Goetia para sua evocação.

Outras Celebrações

Na Grécia Antiga iniciava-se a contagem regressiva de um mês para os jogos olímpicos e também se celebrava a festa de Kronia, onde Cronos era celebrado em seu aspecto agropastoril e onde a opulência relembrava a Idade do Ouro. Em Roma, a deusa Vesta era celebrada, recebendo oferendas em seu templo. A população pedia que a deusa concedesse proteção e bênçãos para os lares, onde Vesta estava representada pelas chamas da lareira. As mulheres casadas também eram autorizadas a entrar no santuário, que durante o restante do ano tinha acesso permitido apenas às sacerdotisas virgens da deusa, conhecidas como vestais.

Outras celebrações são aquelas dos países bálticos, as Jāņi (e nomes variantes), que têm como semelhança a presença de piras cônicas, além da colheita de ervas, flores e folhas de árvores com a finalidade de confeccionar guirlandas. Queijos especiais feitos de coalhada e leite fresco, temperados com ervas, eram servidos na ceia tradicional.

Entre alguns grupos que celebram os deuses escandinavos acredita-se que o momento do apogeu solar representa também a morte precoce do deus Baldur, que lentamente acompanharia a jornada de declínio da luz solar ao descer para o submundo de Hel em uma morte inglória. Ainda assim, carecem de fontes que sustentem este elemento lúgubre da data, sendo registrado pela arqueologia que os festejos do Meio do Verão eram mais próximos daquilo que os celtas celebravam em Beltane ou que os bálticos celebram em Jāņi, onde abundam os elementos de fertilidade, prazer e abundância.

Na China, celebra-se o Festival do Barco Dragão, que ocorre no quinto dia do quinto mês, data próxima ao solstício de Verão. A data, considerada desafortunada, dá lugar a variadas práticas de purga e exorcismo para afastar a má-sorte, os desastres naturais, os acidentes e doenças. Cálamo, flores de romã, artemísia e outras ervas são usadas na forma de amuletos pendurados na porta de casa para espantar os maléficos espíritos causadores das negatividades que a data atrai.

Entende-se ainda que o quinto dia da quinta lua atrai toda sorte de animais venenosos e que o cheiro forte do cálamo e da artemísia ajudam a espantar tais criaturas. Também nesta data se consome vinho com realgar, substância que serve de amuleto para crianças que não podem beber a bebida alcoólica. A associação com o Barco dragão está ligada ao Período dos Estados Combatentes, onde o poeta Qu Yuan se matou afogado no rio e enquanto barqueiros e pescadores buscaram o corpo e o tentavam resgatar de ser devorado por criaturas marinhas, dentre as quais um dragão aquático, que se manifestou quando realgar foi lançado às águas.

Dentre as celebrações civis que ocorrem no período podemos destacar ainda o Dia Internacional da Yoga, onde os postos diplomáticos do governo indiano promovem a celebração mundo afora, e que ocorre no Solstício de Verão no Hemisfério Norte. No Hemisfério Sul, contamos com o Dia Internacional dos Povos Indígenas, que coincide com este solstício e onde diversas atividades envolvendo povos originários são promovidas em vários lugares da América do Sul.

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Este projeto visa compilar, analisar e desenvolver as bases do conhecimento de sistemas mágicos. Leia mais em: www.xaoz.com.br

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